Estado social: Desempregada
- 7 de jun. de 2018
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Termo estranho. Para a maioria das pessoas, estar desempregado significa desespero, fracasso, desesperança. Para algumas (poucas) outras está relacionado à alívio, à libertação, à coragem e atitude.
Para mim, nem um, nem outro.
Pedir demissão estava nos meus planos, faz parte do processo e eu estava me preparando para isso há 6 meses. Afinal, em menos de um mês, estou embarcando para Portugal. Mesmo assim, arrumar a mesa, assinar a recisão e abrir mão de salário, 13º, férias, plano de saúde, vale refeição e alguma estabilidade econômica estremece até os mais valentes e decididos. Nossa sociedade cria trabalhadores. Nos faz acreditar que somos o que fazemos enquanto mão de obra. Somos condicionados a abri mão de tudo pelo trabalho, pela carreira, pelas promoções, pelo reconhecimento, pela estabilidade.
E quando acontece o contrário? Quando abrimos mão do trabalho por todo o resto? Sentiu a perna tremer?
Por outro lado, algumas pessoas odeiam tanto o dia-a-dia no trabalho, seja por não identificação com o objeto do trabalho, seja pela mecanização das tarefas, por stress, por chefias abusivas, entre outras questões, que o pedido de demissão chega carregado de uma sensação de liberdade, de fim de sofrimento e até de felicidade. Pode ser que dure pouco, mas o dia de sair da empresa pela última vez vem acompanhado de fogos de artifícios e de uma marcha triunfal que ecoa na mente do novo feliz desempregado.
Eu adorava meu trabalho.
E por inúmeros motivos.
Percebia valor no que fazíamos todos os dias já que trabalha com diversos programas Culturais e Socioculturais em São Paulo, porque o ambiente de trabalho era incrível, com pessoas mesmo muito diversas e em que prevalecia o respeito mútuo, comportamento que meu "chefe"(ele não gosta que o chame assim) sempre valorizou e promoveu na organização, porque, já que falei nele, eu tinha um chefe que eu realmente admirava e que me dava muita autonomia para trabalhar, porque fiz vários e bons amigos, porque todos os dias era divertido, porque consegui manter uma qualidade de vida, porque consegui trazer resultados importantes, porque sabia que estava fazendo a diferença e, principalmente, porque achava que nada disso seria mais possível.
Pouca gente em São Paulo sabe, mas na última empresa em que trabalhei de verdade em Portugal, em Lisboa, depois de um tempo em que o trabalho era tudo isso de bom que mencionei acima, tudo mudou. E muito! E de repente eu estava num ambiente de trabalho horrível, sem respeito, com um chefe com quem não me identificava e que atuava de forma agressiva e sem critério, eu não tinha mais vida além do trabalho, o nível de stress era altíssimo e, eu não sabia, estava bem doente na época. Foi duro. Eu desmaiava na rua à toa, comecei a ter síndrome de pânico, a tomar remédios que eu nunca me imaginei chegando perto e, no meio disso tudo, esse chefe tentou me mandar embora por justa causa.
Passou, como tudo passa. Entretanto, tinha perdido a confiança em mim mesma, na minha capacidade profissional e nas minhas competências. No fundo, pensava que nunca mais trabalharia numa organização com hierarquia, metas, equipes de trabalho ou horários a cumprir. Por sorte (sorte?) não foi assim.
Por isso, meus sentimentos em relação a essa saída do trabalho são tão confusos. Alegria por cumprir mais uma etapa em direção à essa nova vida que escolhi com o Tiago, tristeza por deixar para trás tanta coisa boa, satisfação por tudo o que foi realizado, ansiedade ante a incerteza, porém, acima de tudo, paz, tranquilidade e uma certa exaltação por voltar a ter certeza de quem eu sou e do que sou capaz.
Obrigada, Poiesis.





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